Chapetuba FC

Brasil conheceram um novo repertório, no qual se destacou “Chapetuba F.C.”. Nas palavras do autor, Oduvaldo Viana Filho, a peça é “uma crônica brasileira, um pouco assim nacionalista, um pouco verde-amarela das nossas coisas, das nossas bossas. Mas de qualquer maneira, me parece que já representa um pulo, um avanço no sentido de uma temática nossa”.

Chapetuba é o clube que representa o povo da pequena cidade fictícia homônima. A peça se passa às vésperas do jogo decisivo para o acesso à primeira divisão do campeonato estadual. Do outro lado, o clube adversário representa não o rival, mas o verdadeiro inimigo, detentor dos trunfos que definirão o jogo — o poder dos cartolas, na comissão de arbitragem, e o valor em dinheiro utilizado para subornar o goleiro do Chapetuba.

O texto usa o futebol, símbolo nacional, para discutir a corrupção e o poder do grande capital em detrimento dos interesses da maioria da população.

Cena de “Chapetuba F.C.” no Teatro de Arena, São Paulo, 1959, sob direção de Augusto Boal
(Foto

: Instituto Augusto Boal)

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Xandó Batista, Arnaldo Weiss, Chico de Assis, Nélson Xavier e Flávio Migliaccio em cena de “Chapetuba F.C.” dirigida por Augusto Boal no Teatro de Arena, São Paulo, 1959
(Foto: 

Iconographia)
Cena de “A Mais-Valia Vai Acabar, Seu Edgar” no Teatro de Arena da Faculdade Nacional de Arquitetura, no Rio de Janeiro, 1960
(Foto: Cedoc-Funarte)

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O espetáculo de estreia do grupo carioca Teatro Jovem, em 1960, selou uma parceria entre artistas e intelectuais que mais tarde culminaria na criação do CPC da UNE
(Foto: Arquivo Brício de Abreu/Funarte)

A mais-valia vai acabar, seu Edgar

Buscando adequar o vocabulário marxista à dramaturgia nacional, Oduvaldo Viana Filho, o Vianinha, escreveu em 1960 a comédia musical “A Mais-Valia Vai Acabar, Seu Edgar”, em parceria com Chico de Assis e Carlos Estevam Martins, do do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb). A Martins coube a difícil tarefa de traduzir em linguagem simples o denso conceito da mais-valia, para apresentá-lo didaticamente à população geral.

A montagem, dirigida por Chico de Assis e com trilha sonora de Carlos Lyra, teve ainda uma colagem de filmes, exibida no fundo do palco, realizada pelo cineasta Leon Hirszman. A produção foi marcada pela busca de maneiras eficazes de utilizar o palco na conscientização de classe do povo trabalhador.

Os versos rimados, a opção pela comédia, a parceria com o Iseb, a exposição de conceitos marxistas e a utilização do coro — que comentava a trama enquanto ela se desenrolava — foram elementos que fizeram dessa montagem, produzida pelo grupo estreante Teatro Jovem, um marco da dramaturgia engajada no movimento pela transformação social.

Cena de “Revolução na América do Sul” no Teatro de Arena, São Paulo, 1960
(Foto: Instituto Augusto Boal)
Cena de “Revolução na América do Sul” no Teatro de Arena, São Paulo, 1960
(Foto: Funarte)
Programa de apresentação da peça “Revolução na América do Sul” no palco do Teatro de Arena, São Paulo, 1960
(Foto: Iconographia)

Revolução na América do Sul

Apesar de o Teatro de Arena ter o realismo social como elemento estético predominante, “Revolução na América do Sul”, de Augusto Boal, saiu do padrão — foi uma experiência farsesca. Ainda que a peça fosse pontualmente realista, pois se ligava à realidade nacional do momento, seus personagens não tinham nome, mas tipificações grosseiras e diretas: Médico, Delegado, Madame, Playboy, Menino, Secretário, Deputado, Prostituta. O único personagem a receber uma identificação nominal foi José da Silva, indivíduo-síntese do povo brasileiro.

As pequenas cenas do espetáculo formavam um mosaico de sátiras que, acima de tudo, procuravam instigar no público uma percepção crítica das relações sociais e dos processos históricos pelos quais o Brasil e outros países latino-americanos vinham construindo suas identidades e culturas políticas.

As gagues concebidas por Augusto Boal e pelo diretor José Renato (fundador do Arena) em 1960 focalizavam nossos desacertos políticos — aquilo que, infelizmente, ainda fazem o Brasil ser o que é.

Renato Borghi, Lípia Araújo, Etty Fraser, Célia Helena, Liana Duval, Fernando Peixoto e Luiz Linhares no palco do Teatro Oficina em cena da peça “Pequenos Burgueses”, em 1963
(Foto: Arquivo Etty Fraser)
Eugênio Kusnet em cena de “Pequenos Burgueses” no Teatro Oficina, São Paulo, 1964
(Foto: Idart-Centro Cultural São Paulo)

Pequenos burgueses

Para o crítico Sábato Magaldi, o paulistano Teatro Oficina foi uma espécie de continuador do Teatro de Arena e do Teatro Brasileiro de Comédia. Do primeiro, teria herdado a preocupação social e política na escolha do repertório; do segundo, o zelo pela pesquisa estética a fim de qualificar a mensagem transmitida ao público.

Em 1963, inspirado pelos ventos de mudança que pareciam soprar no país, o Oficina realizou a montagem de “Pequenos Burgueses”, texto de 1900 do russo Máximo Górki. A maneira como José Celso Martinez Corrêa (que, com Fernando Peixoto, traduziu o texto original) dirigiu o espetáculo fez saltar aos olhos da plateia as semelhanças entre o Brasil de então e a Rússia pré-revolucionária do fim do século 19, semeando na imaginação coletiva a possibilidade real de uma transformação estrutural comparável à de 1917.

A peça teve um forte efeito catártico, provocando a identificação de parte do público com os personagens e conduzindo todos a um suicídio classista coletivo: intérpretes e plateia “morrendo” pequeno-burgueses e “renascendo” revolucionários.

O espetáculo, que despertou em muitos jovens o desejo de participar de mudanças revolucionárias, seria proibido dois dias após o golpe de 1964 —ironicamente chamado de “revolução” pelos militares.

Flávio Rangel, dirige o elenco durante ensaio da peça “A Semente” no Teatro Brasileiro de Comédia, São Paulo, 1961
(Foto: Reprodução/“Viver de Teatro: uma Biografia de Flávio Rangel”, de José Rubens Siqueira, ed. Nova Alexandria)

A semente

Em 1961, um acontecimento inusitado nos palcos brasileiros refletiu o ambiente político que o país vivia. O TBC, templo do teatro burguês, abrigou a peça “A Semente”, recém-escrita por Gianfrancesco Guarnieri — notório dramaturgo de esquerda que já manifestara seu pensamento político na peça “Eles Não Usam Black-Tie”, de 1958.

O enredo de “A Semente” vai além da denúncia da exploração capitalista presente na relação patrão-empregado: ele critica diretamente o PCB, explicitando suas arbitrariedades e suas diretrizes desacertadas, seja por equívoco, seja por inépcia de seus dirigentes e filiados.

Ao expor a vida interna do partido, caracterizando seus membros como prisioneiros de estruturas burocráticas e de labirintos teóricos, o texto foca um dos filiados, Agileu, que, apesar de consciente das injustiças do mundo, vivia em descompasso com a realidade — faltava-lhe sensibilidade para pôr em prática, de modo menos impessoal, o ideal revolucionário.

O texto de Guarnieri proporcionou uma nova forma de ler o Brasil, ao mesmo tempo que buscou plantar, na imaginação nacional, uma nova perspectiva de ação revolucionária.